2009/07/19

Um dia no escritório

video

2009/07/18

The nation whose population depends on the explosively compressed headline service of television news can expect to be exploited by the demagogues and dictators who prey upon the semi-informed.

Walter Cronkite (1916-2009)

2009/07/14

C stands for "can you sing Hallelujah?"

video

2009/07/04

Prince, n'enquerez de sepmaine
Ou elles sont, ne de cest an,
Qu'a ce reffrain ne vous remaine:
Mais ou sont les neiges d'antan?

François Villon (c. 1431 - 1463)

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2009/07/02

Coisas do mafarrico
















Manuel Pinho, recém-ex-ministro da República Portuguesa, fez este gesto, hoje, no Parlamento. Um gesto que, aparentemente, é considerado como muito ofensivo e que, a ser feito por ministro, implica demissão automática.

Eu, que fiz 4 anos e tal de tropa, que até já andei no mar com estivadores e no campo com lavradores, fico na mesma.

Isto é o quê?

Que amanhã há tourada em Salvaterra de Magos e que Vosselências estão convidadas?

Que me parece a mim que hoje acordei com orelhas de burro?

Que yo no credo en el demo pero que lo hay, lo hay?

Que ando a comer-te a mulher, meu ganda cabrão?

Ou que bem que ia agora uma chanfana de cabrito?

Acho que nunca o saberemos.

Em todo o caso, uma das vantagens acessórias deste gesto ter sido feito no canal Parlamento é o de ficarmos a saber, pelo menos, como é que se insulta em linguagem gestual: é só deixar os braços caídos que o interlocutor assume logo um belo par de chifres.

Portanto, já sabem: sempre que derem com um surdo, pelo sim, pelo não, ponham logo os bracinhos no ar. Não vá o Diabo tecê-las.


2009/06/28

Nem mais.

2009/06/26

Ars Google

Continua a saga das palavras inseridas nos motores de busca da internet e das pessoas que por elas cá vêm ter. Pelos vistos, aqui no Arame, tal como nas lojas chinesas, há de tudo e para todos os gostos.

Aqui vêm ter:

- os copistas de manuscritos que procuram pelas
regras de caligrafia;
- os pedreiros que querem saber como se faz
cantaria de Peniche;
- os pescadores que querem
criar asticot;
- os estilistas que procuram novas da recente
colecção de roupa da Ucrânia;
- os linguistas que perguntam por um
excerto de uma história dialogada em português ou por uma frase sincopada
- os que procuram
citações sobre a banana e a cona;
- os amantes do Bruce Chatwin em demanda da
dieta e tradição dos aborígenes da Austrália;
- as mulheres prevenidas que aviam caixas de
trigynera e as que apenas querem saber como se s se toma o minulet;
- os fitoterapeutas na senda dos segredos da
mezinha de óleo de noz
- os biólogos pretendem saber onde pára a
iena do filme Rei Leão - assim mesmo, sem agá, à Lagardére.
- os sismólogos que não só postulam sobre
intensidade, magnitude e mercali como também sabem o que se passa com a tectónica do fundo do mar, a causa mais provável dos sismos no ano 2003.
- os que buscam mulheres. Se uma
mulher holandesa por vezes não é suficiente, então que venha uma amadora nua. Se não houver amadoras nuas, podem ser africanas nuas ou então mulheres nuas do faial que o pessoal não é esquisito.
- os homens que procuram putas:
putas no Montijo é sempre uma opção popular. Ou então, para se ser mesmo exótico putas israelitas ou putas de portugall, assim mesmo, com dois élles. Se não houver putas por aqui, não faz mal: pode ser que hajam imagens de putas no serviço ou que se consigam descobrir quem são as senhoras do sexo em lisboa;
- os marinheiros que buscam a
planta do convés do navio e os que querem saber da navegação proibida do icn;
- os melómanos que querem saber da
música do cavaleiro andante cantada pela rita guerra e os cinéfilos que procuram um filme de John Cassavetes Too Late Blue em português. E, claro, os mega followers twiterianos, que inserem nuno markl blog e que pedem as imagens jantar nuno markl;
- os eróticos que pretendem
soutiens wonderbra e cremes excitantes, talvez para passar no sovaco peludo;
- os pintores que desejam saber quem são os outros
pintores que pintam a óleo e aguarelas, e os pintores de óleo com canários que querem saber, igualmente, onde encontrar imagens de pinturas de rosto chinesas;
- os que procuram uma
ilusão óptica ou querem saber do Duarte com trissomia 21 down;
- os que levam para a
serra nevada uma carrinha e os que rezam, simplesmente, a seguinte oração: nietzsche virtudes senhor tuas.

Por aqui desaguam também pessoas que procuram imagens tais como a
fotografia do Possidónio cachapa -será antes ou depois da tingição? - ou, mais bucolicamente, a foto de uma manhã inverno no Minho.

Há também os saudosistas que recordam o
império no tempo de Alexandre, os minimalistas pervertidos que inserem 2 raparigas e 1 rapaz, o comunista inquiridor que procura um militante em Peniche, os que querem Cavaleiros Escuteiros, os esotéricos pedem o quinto império do cavalo branco e ainda os totalmente confusos, com banco le portugal 500 liuro ou o casco pão com manteiga modelismo.

Depois vêm os casos sérios: os enlutados que proclamam que o
insane Rui morreu e os que querem com muita ambição ter papéis de parade (sic) de mulheres nuas. Ambos coexistem com os que ambicionam ter tatuagens de águia e os que apenas querem aviões particulares com mensagens de Lisboa.

Vêm também os aflitos com os
caroços no pescoço desde nascença; os obcecados com o alexandre frota da Obsessão, os perfeccionistas, que pesquisam a net à procura de um foto blog português mergulho poesia fotografia e ainda os que sabem bem ao que vêm: com o seu Arame do Alexandre .

Finalmente os incategorizáveis: o utente que escreve
quero lamber teu corpo musculado e a utente que proclama fui sodomizada... e a frase ganhadora, a que surge no sitemeter pendularmente 2 a 3 vezes por dia: pomada para apertar a vagina.

A internet é realmente um mundo fantástico.


2009/06/08

Chapelada, procura-se


Tendo em conta a troca de voltas que nós, eleitores, demos ao PS que está no Governo (e às mais variadas empresas de sondagem que o tranquilizaram), deve estar já a voar para a Flórida um qualquer seu assessor próximo - quanto querem apostar que, a seguir ao cartão de cidadão e ao chip da matrícula, o próximo gadget a ser introduzido no país (sempre, claro, ao abrigo das Novas Tecnologias e do Simplex) será a máquina americana de votação electrónica?

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Nobody expects the Spanish Inquisition!



















Sempre que sempre vejo os grandes líderes do Bloco de Esquerda a cuspinhar perdigotos na televisão contra as ditaduras da maioria, vem-me à memória o sketch dos Monthy Python em que um capataz entra humildemente na sala da proprietária e lhe dá a notícia, sumária e desagradável:

- Trouble at mill.

numa dicção tão sofrível que acaba por ser questionado três vezes sobre o teor da mensagem. Aborrecido com tanta insistência, o homem responde:

- Mr Wentworth just told me to come in here and say that there was trouble at the mill, that's all - I didn't expect a kind of Spanish Inquisition.

Eis então que, num golpe de teatro, surge inopinadamente o Cardeal Ximenez, da Inquisição Espanhola, vociferando:

- Nobody expects the Spanish Inquisition!

e continua, explicando porque se deve temer a Inquisição Espanhola:

- Our chief weapon is surprise...surprise and fear...fear and surprise.... Our two weapons are fear and surprise...and ruthless efficiency.... Our three weapons are fear, surprise, and ruthless efficiency...and an almost fanatical devotion to the Pope.... Our four...no... Amongst our weapons.... Amongst our weaponry...are such elements as fear, surprise.... I'll come in again.

E a partir daqui, as razões e os motivos embrulham-se e, na dúvida e no impasse, recorre-se à incriminação ad hominem e à tortura dos incautos que se encontram na sala através do uso de, entre outros instrumentos diabólicos, um sofá acolchoado e um par de almofadas.

E porque me lembra o Bloco de Esquerda o sketch dos Monthy?

Porque está lá tudo: o capataz ignaro e com má dicção, a Inquisição boçal que dispara contra tudos e contra todos, sem saber contra quem nem porquê, os torturados com as almofadinhas e os paninhos quentes do politicamente correcto e um público eleitor que, apesar da incoerência do discurso político, apesar de saber que o BE é um partido do contra - contra o governo, contra as maiorias, contra o Estado, contra a ordem, contra a autoridade (dos professores, das polícias, da autoridades judiciais, enfim, contra tudo o que não seja a autoridade das minorias iluminadas dos intelectuais bloquistas e o seu diktat) - vota inconscientemente nele, mesmo sabendo que fará sempre parte das massas dirigidas e não da classe dirigente, só pelo prazer pirómano de ver o circo a arder.

A mim, o extremismo sempre me fez confusão, seja ele de direita ou de esquerda. E é exactamente por me fazer confusão que a partir de agora, eu - que de esquerda me confesso - não tenho outro remédio que não seja juntar-me às hostes dessa Forlorn Hope que cerra fileiras no horizonte de modo a tudo fazer para derrotar nas urnas esta nóvel Inquisição que, patética mas paulatinamente, se metastiza a olhos vistos nesta sociedade que quero ver livre por muitos e bons anos.



The Forlorn Hope party on the breach of Badajoz, 1812. Richard Caton Woodville Jr..

A sad day for democracy

Hoje fui votar. Infelizmente, não foi o suficiente para debelar o arreganhar de dentes polpotista do Bloco de Esquerda.
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2009/06/06

And that's a fact

O melhor blogue do Universo

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2009/06/04

Killed Bill















Nunca o imaginei de nylon.

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2009/05/31

Melhor estrofe cantada de sempre

(...)

well there was a time when you let me know
what's really going on below
but now you never show that to me do you
but remember when I moved in you
and the holy dove was moving too
and every breath we drew was hallelujah

(...)

2009/05/25

Melhor filme de levar às lágrimas de sempre


2009/05/20

Melhores séries de televisão de sempre






















Número um de sempre, Os Pequenos Vagabundos, não descansei enquanto não comprei o DVD do Tesouro do Castelo sem Nome. Datadíssimo, é claro, mas o ambiente a la escuteiros das Ardenas ainda está lá. E depois, depois havia a Marion...;

Número dois, Dois Anos de Férias, a partir do romance do Jules Verne e com o Marc di Napoli, o Cowboy da série anterior;

Número três, uma inglesa da BBC, com um puto que tinha uma casa numa árvore, qualquer coisa Rowntree, seria isso?;

Número quatro, a Pipi das Meias Altas (era bébé, mas lembro-me de a ver);

Número cinco, o Sandokan do Kabir Bedi, mais os seus nemesis da HEIC;

Número seis, o Espaço 1999 (andei semanas catatónico, a seguir à transmissão de um episódio em particular, em que um polvo do espaço sugava para dentro de si vários astronautas incautos e depois os devolvia sob a forma de esqueletos descarnados e fumegantes, fitando o escuro com os olhos abertos de terror, tentando não adormecer, porque nunca se sabe o que se esconde debaixo da nossa cama, não é?) ;

Número sete, uma série de artes marciais, completamente canastrona, com um chinês de rabo-de-cavalo, qualquer coisa Shaolin?

Número oito, O Verão Azul, mas não fiquei nostálgico.

Número nove, Sim, Senhor Ministro.

Número dez, que seguia religiosamente mas que da qual estupidamente não me lembro o nome: um casal, ele jornalista de desporto num jornal, com dois filhos gémeos e uma miúda mais velha, a viver defronte dos sogros dela... help;*

Número onze, Will and Grace;

Número doze, Black Adder;

Número 13, All in the Family;

Número 14, Greg and Dharma;

Número 15, Seinfeld.


* lembrei-me! Everybody loves Raymond.



(Desafiado pela Patrícia, pensei que não conseguiria chegar às quinze. Afinal, não foi preciso pensar muito... Agora, para deitar de vez os parentes à lama, acho que é suposto agora indicar umas quantas pessoas para que nos digam quais as suas séries preferidas.. ok, cá vai: Jorge, Filipe, Carlos e Joel).

2009/05/18

Madness

















De Kanchanaburi até Nam Tok, segue-se de comboio ao longo do rio Kwai. À saída da cidade onde descansam eternamente os restos de milhares de combatentes da Segunda Guerra Mundial, unindo as duas margens de um rio pacífico, fica um marco da minha adolescência: a ponte do Rio Kwai.

Esta linha de caminho de ferro, concebida pelos Japoneses como parte de um grande projecto de caminho de ferro que ligaria a Birmânia ao Sião, tem uma extensão 414 quilómetros. Une Nong Pladuk, 50 km a sudeste de Kanchanaburi, a Thanbyuzayat, junto à costa da Birmânia, agora Myanmar.

Implementada em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, logo após o bloqueio das rotas marítimas do Império do Sol Nascente pelos Aliados, e construída em condições pavorosas, esta linha ferroviária funcionou apenas durante dois anos. Nela trabalharam cerca de 60.000 prisioneiros de guerra e 300.000 trabalhadores asiáticos, forçados a trabalhar em turnos de 18 horas.

A grande maioria perdeu a vida devido à cólera, à malária, à subnutrição e, ainda mais trágico, aos maus-tratos infligidos pelos japoneses - diz-se que, por cada dormente colocado, morria um homem. No final da construção da linha, tinham desaparecido mais de 112.000 trabalhadores - 12.000 dos quais prisioneiros de guerra dos Aliados, ingleses, australianos, holandeses, americanos.

Passando vagarosamente pela famosa ponte sobre o rio Kwai, muito mais fotogénica no filme de David Lean do que aqui, na realidade real - não foi debalde que a ponte do filme foi construída na selva do Sri-Lanka, em escala natural - não resisto a assobiar a Colonel Bogey March. É um clichet, eu sei, mas há impulsos que nos subjugam irrestivelmente, ridículos ou não. Se fosse hoje, recordaria premonitoriamente que a última palavra que se ouve no filme é "loucura", repetida três vezes, tal como loucos estavam os protagonistas principais do filme.

Para o coronel Nicholson (Alec Guinness), o oficial de maior patente entre os prisioneiros ingleses, a Segunda Guerra Mundial resumia-se à construção de uma ponte estratégica, uma construção que pretendia que fosse tão eficaz que ela prórpria funcionasse como prova da superioridade britânica - mesmo que para tal tivesse de ajudar o inimigo.

Para o coronel Saito (Sessue Hayakawa), responsável japonês pelo campo de prisioneiros, o suicídio era a única hipótese que equacionava sempre que se levantava a hipótese de que a ponte construída pelos ingleses pudesse ser melhor do que a que poderia ser erguida pelos seus próprios homens. Mas é Nicholson que diz, algures no filme: one day the war will be over, and I hope the people who use this bridge in years to come will remember how it was built, and who built it.

Estava enganado. Embora a primeira ponte de caminho de ferro sobre o rio Kwai tenha sido construída em madeira, rapidamente foi substituída por uma de ferro, repetidamente bombardeada e danificada pela Força Aérea americana a partir de finais de 1944 - a actual ponte de Kanchanaburi foi reconstruída graças ao contributo das reparações de guerra do Japão, incluíndo duas vigas provenientes da Japan Bridge Company, de Osaka, nada tendo a ver com a ponte dos tempos da Grande Guerra.

Embora a história bélica seja, por vezes, escrita com ironia, ela resulta sempre da loucura dos homens. Da loucura de pessoas como as retratadas pelos coronéis inglês e japonês, por exemplo, pessoas que existem em todas as guerras, em todos os tempos.



Rio Kwai, Tailândia, Fuji Sensia 100

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2009/05/13


Há dias em que me apetece dar uma de Antero de Quental, pegar no Lefaucheux, sentar-me num banco do jardim e pregar dois tiros nos cornos.

Depois, penso que esse meu egoísmo de querer fugir para a frente talvez magoasse duas, vá, três pessoas. Aí, fico quieto, vou à vidinha e espero que passe. A vontade.

O cansaço, esse, fica. E o que fica, pode não matar. Mas mói. E quanto mais mói, mais apetecível se torna o banco do jardim.

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Cinco melhores filmes de sempre
















2009/05/10

Melhor poema de sempre

penso em ti como chuva 
e eu 
como terra seca e gretada 
sob um céu sem nuvens 

Kalamu Ya Salaam, Haicai nº 107, em tradução livre da minha autoria

2009/05/08

Melhor álbum de sempre






















The Pros and Cons of Hitch Hiking, do Roger Waters.


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Melhor romance de sempre












Os dias de Missirá, de Manuel Lamas

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2009/04/26

Mon amour

















Ciudad Rodrigo, Salamanca, Madrid, Aranjuez, a progressão faz-se por cidades massacradas por franceses e ingleses, milhares de mortos então empilhados uns sobre os outros na agora pacífica e esquecida Fuentes de Oñoro, Massena e Wellington a fazer-me companhia, cavalgando a meu lado pelas autoestradas que atravessam a Extremadura e Castilla y Léon.

São cinco da tarde. O dia cai vertiginosamente por sobre a planície ressequida da Castela e Leão. O céu apresenta-se com uma tonalidade sinistra e o calor oprime homens e bestas. Fartos de engolir quilómetros, paramos numa anódina estação de serviço. São cinco da tarde. 

Primeiro click

Evoco a primeira estrofe do La cogida y la muerte, do poema Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, do Lorca. 

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde. 

E desentorpeço as pernas. Mais à frente, numa placa de trânsito, lê-se: Aranjuez. 

Segundo click.

Desde que me lembro que me lembro que a música que mais me fascinava quando criança que ainda não sabia andar era a que se escondia num disco de vinil, ainda de 78 rpm, tocada vezes sem conta a meu pedido. Soube, anos mais tarde, que a voz rouca que se escutava num francês angular, cheio de arestas, pertencia a Amália Rodrigues, que a letra era de Guy Bontempelli e que a melodia de fundo era um excerto de um dos clássicos do compositor espanhol Joaquin Rodrigo, nascido em 1901 e falecido em 1999, com 97 anos de idade. 

O que torna Rodrigo tão interessante como pessoa - para além da obra musical que nos legou - é o facto de ter contraído difteria com três anos e de ter cegado em consequência da doença. Foi graças ao treino musical em Braille e, posteriormente, à ajuda da sua mulher - também ela profissional da música - que Rodrigo conseguiu singrar e triunfar na carreira de compositor produzindo vários concertos e obras para música de câmara e piano.

Este seu Concierto de Aranjuez, escrito em 1940, é sem dúvida, uma das suas obras mais conhecidas tendo sido interpretado por artistas tão contrastantes como Paco de Lucia e Miles Davis (este último, no seu fenomenal Sketches of Spain). É, contudo, uma obra que exige grande mestria de mãos já que Rodrigo, cego desde os três anos, compunha ao piano a maior parte das suas peças para guitarra levando a que a rapidez de execução no piano tivesse uma difícil transposição para o instrumento de cordas.

O Concierto foi escrito numa das alturas mais difíceis da vida dos Rodrigo. Não só se estava no rescaldo da Guerra Civil Espanhola e em plena Segunda Guerra Mundial, como também o casal tinha acabado de perder o seu primeiro filho. E é nesse momento de angústia que Joaquin Rodrigo conversa com Deus, mantendo um ritmo que dura e dura e que é o próprio ritmo da vida, a própria negação da morte (o conjunto ritmíco do um-dois-três, um-dois-três, um-dois-três, tipicamente espanhol, juntamente com aquele innuendo da trompa inglesa que abre o segundo movimento, e que é simplesmente divino).

Essa conversa de Joaquin com Deus, explícita durante o segundo momento do Concierto, é dialogada em primeiro lugar pela melodia da trompa inglesa, depois pelo tanger da guitarra e finalmente pelo desempenho de cada um dos diferentes instrumentos da orquestra - num crescendo que desemboca num tremendo tutti, num autêntico hino à vida, numa mensagem de amor pelo filho perdido, num pedido a Deus para que Este seja misericordioso e lhe deixe com vida, ao menos, a esposa. E quando termina o tutti, e se ouve novamente o gemer da guitarra, sabemos que Rodrigo aceitou finalmente a vontade de Deus. É essa aceitação que se ouve no movimento final e que termina com a ascensão da alma do bebé ao Céu.

O terceiro click dá-se um dia mais tarde quando consegui encontrar um CD com as mais diversas faixas da Amália, cantadas em outras línguas que não o português. E, claro, fatalmente entre elas estava o Aranjuez, mon Amour (é claro que a versão cantada original não era da Amália, mas sim do Richard Anthony, mas que nos interessa isso para esta história?). E é quando releio a letra que percebo, realmente, porque associei eu Aranjuez a Lorca.

Mon amour, sur l'eau des fontaines, mon amour ou le vent les amènent, mon amour, le soir tombé, qu'on voit flotté des pétales de roses.

Mon amour, et des murs se gercent, mon amour au soleil, au vent à l'averse et aux années qui vont passant depuis le matin de mai qu'ils sont venus et quand chantant, soudain ils ont écrit sur les murs du bout de leur fusil de bien étranges choses.

Mon amour, le rosier suit les traces, mon amour, sur le mur et enlace, mon amour, leurs noms gravés et chaque été d'un beau rouge sont les roses.

Mon amour, sèche les fontaines, mon amour, au soleil au vent de la plaine et aux années qui vont passant depuis le matin de mai qu'il sont venus, la fleur au cœur, les pieds nus, le pas lent, et les yeux éclairés d'un étrange sourire.

Et sur ce mur lorsque le soir descend on croirait voir des taches de sang ce ne sont que des roses! Aranjuez, mon amour.




Aranjuez, Kodak T 160 VC

2009/04/25

De como a crise é também sinónimo de oportunidade

A Laurinda Alves - sim, a Laurinda Alves da famigerada e em boa hora extinta Xis - foi, finalmente, despedida de colunista do Público. Se mais razões fossem precisas para justificar este verdadeiro chuto para canto que o seu Director lhe deu, com o pretexto eufemístico da crise, bastam as que estão pespegadas na sua última e derradeira coluna: me, me, me and me. Acabou-se o martírio do Star Tracker, dos gurus da felicidade, das introspecções sobre os carros avantajados que deteve e dos choradinhos sobre os estropiados espirituais a quem concedeu, benevolamente, a sua grácil e muito pública atenção.

Agora só falta ao Público acabar com aquela verdadeira desgraça que é o Inimigo Público e conseguir fazer-se distribuir antes das 09:00 da manhã nos quiosques da linha de Cascais para se poder dizer que a sua recuperação económica e qualitativa está verdadeiramente a caminho.
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2009/04/23

Ask and ye shall receive


O perigo de um tipo vir reclamar em praça pública é que pode haver quem o ouça. Por exemplo, um dia depois de me ter queixado de ninguém ligar ao empobrecimento lícito, pega o JN na bisca e lança-a ao Gabriel Silva, do Blasfémias. No ressalto, termina o assunto na crónica da Helena Matos, hoje, no Público.

Foi bonito o gesto, pázinhos. Fiquei deveras comovido.

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2009/04/20

Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem


Anda por aí um charivari relativamente ao enriquecimento ilícito que já não se pode abrir um jornal ou ler um blog que não se tope com a coisa.

Acho muito bem a indignação e a pesarosa contemplação de alguns destes apelantes, as mãos ociosas cruzadas sobre os brasões e os bolsos cheios de sinecuras e prebendas, a justa indignação a fazer-lhes tremer o pingue lábio inferior e a voz.

Mas o que eu gostava mesmo de ver era quem se indignasse contra o empobrecimento lícito - o meu, por exemplo. Isso sim, é que seria um gesto bem bonito. 

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2009/04/05

Obrigado, João Marcelino...

.. por me tirar as palavras da boca:

Confesso: também frequento o twitter, de vez em quando, à procura de ideias interessantes, e de notícias, mas o que ali vejo predominar por enquanto é o egocentrismo, a vaidade mal disfarçada, e, imagino, muito problema de solidão. Já que me deram o pretexto, aproveito: faz-me confusão ver pessoas com responsabilidades - no jornalismo, na política, em muitas áreas da vida social portuguesa - a discutirem em público temas tão interessantes como o exame da próstata, a informarem-nos sobre o que comem, a dizerem aos seus fanáticos e devotos "seguidores", que cultivam com evidente gozo e em orgulhosa competição, onde estão e o que fazem. Sinceramente, respeito mas não gosto. Em definitivo, só estranho que estas novas estrelas do big brother twitter, algumas das quais se rebelaram na altura contra o tabloidismo de determinados formatos televisivos, chafurdem agora no mesmo mundo, oco e exibicionista, ainda por cima de borla. O José Castelo Branco, ao menos, fazia-se pagar pelas rábulas. E às vezes tinha graça, o que não é de somenos.
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2009/04/02

Psyché ranimée par le baiser de l'Amour



























Museu do Louvre, digital.

2009/03/28

Grandes quase-que efemérides portuguesas

1521 - Fernão de Magalhães quase que completa a primeira viagem de circum-navegação, morrendo literalmente numa praia, filipina, a meio da viagem.

1922 - Gago Coutinho e Sacadura Cabral quase que chegam de avião ao Brasil, ficando-se pelo penedo de São Pedro e São Paulo, algures no Atlântico Sul.

2004 - Portugal quase que ganha o Euro 2004.

2007 - A selecção portuguesa de rugby quase que não perde todos os jogos em que participou no Campeonato do Mundo.

2009 - A Playboy portuguesa quase que consegue apresentar um nu integral de uma portuguesa mais ou menos desconhecida, quase que igualando a modéstia da Playboy indonésia.*


* que tem, pelo menos, a desculpa de se publicar num país islâmico. Ah, e quanto à capa, está já tudo dito.
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2009/03/02

à noite
[sonho com o deserto]

de dia
[mergulho nas tuas águas]

no teu corpo, cristalino
expiro, abro os olhos
[como os dos peixes, submarinos]
contemplo os naufrágios antigos
as vítimas esquecidas do sueste

os ossos brancos, dos mortos antigos,
de todos os homens que tu já tiveste.

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2009/02/25

[lenta, mansamente]
teces com os dedos
frias redes de silêncio

e lança-las às águas
[escuras e profundas]
do nosso distanciamento.

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2009/02/24

Um livro é um livro

Um livro, quando bom, vale pelo que é. Pelas palavras, frases, que contém dentro. Espanta-me, assim, que haja quem se masturbe com os autores dos livros, quem os analise, quem os afague, quem os vilipendie, quem faça das vidas desses autores verdadeiras hagiografias ou quem, pelo contrário, só porque o autor é gay, ou comunista, ou se vista de carmim, insira as suas obras no Index Librorum Prohibitorum.

Um livro ou é bom ou é mau. Pode, quanto muito, ser apenas um livro assim-assim.

Agora, irrelevante mesmo, é o seu autor. E a vida desse autor. Como irrelevantes são sempre os críticos de literatura ou a cor da camisola dos tradutores desse autor.*


* post escrito comigo ainda fodido com uma crítica no Público - certamente da autoria de um amigo qualquer da Hélia Correia - e que me levou a comprar o mais que possidónio e mal escrito Lilias Fraser. E olhem que já lá vão muitos anos!
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2009/02/21

Sabia que...



... se todas as pessoas do Mundo consumirem como as dos países desenvolvidos, precisamos de mais quatro planetas Terra para nos sustentar?

... mais de um quarto dos habitantes da Terra tem entre 10 e 24 anos de idade? E, que destes, 86% vivem em países do Terceiro Mundo?

... a desflorestação e o pastoreio excessivo fazem com que se perca anualmente em todo o mundo uma área fértil do tamanho da Irlanda?

... a soma da riqueza dos 225 cidadãos mais ricos do planeta é igual, em valor, à soma dos rendimentos de 47% da população mundial, ou seja, de 2.5 biliões de pessoas?

... 20% das pessoas mais ricas do planeta consome 75% dos seus recursos naturais?

... todos os dias se extinguem, em todo o mundo, 50 espécies de plantas?

... a Inglaterra envia para o lixo, todos os anos, alimentos no valor de 571 milhões de euros?

... na América, um quarto de toda a comida produzida não chega a ser consumida?

... consumir carne de frango em vez de carne de vaca significa exercer 15 vezes menos impacto ambiental por cada unidade consumida?

... em 2005, a nível mundial, passaram a existir mais pessoas a viver na cidade que no campo?

... em Londres, 1 em cada 50 ataques cardíacos é provocado pela poluição atmosférica?

... respirar todos os dias o ar de cidades indianas como Bombaim e Nova Deli é o mesmo que fumar 18 cigarros por dia?

... um condutor de Banguecoque passa o equivalente a 44 dias por ano preso em engarrafamentos de trânsito?

... 80% dos carros são propriedade de 20% da população do planeta?

... existem mais carros na cidade de Los Angeles do que em toda a Índia, China, Indonésia, Paquistão e Bangladesh juntos?

... num percurso de 5 km, um carro emite 10 vezes mais dióxido de carbono por passageiro que um autocarro e 25 vezes mais que um comboio?

... em 2005 existiam 15 milhões de computadores obsoletos em todo o mundo? E que o lixo gerado por eles continha 600 milhões de quilos de chumbo, 1 milhão de quilos de cádmio e 200.000 quilos de mercúrio – todos metais pesados extremamente tóxicos?

... por cada tonelada de papel reciclado, salvam-se 17 árvores, poupam-se 21.000 litros de água, reduz-se a poluição atmosférica em 30 quilos e evitam-se 2.3 metros cúbicos de desperdícios?

... até ao final deste século as temperaturas médias do planeta terão aumentado 5.8ºC e que o nível médio do mar terá subido 90 cm?

... os gases responsáveis pela destruição da camada do ozono permanecem activos na estratosfera durante 111 anos?

... um adolescente americano vê aproximadamente 23 horas de televisão por semana? E que, quando criança, passa mais tempo a ver televisão do que na escola e que quando perfizer 18 anos terá assistido a mais de 100.000 actos de violência e a mais de 300.000 anúncios na TV?

... 97% da água do planeta é água salgada? E que, de toda a água disponível, apenas 1% é potável e utilizável para se beber e regar na agricultura?

... em 2009, dois terços da população mundial terão falta crónica de água?

... mais de 2 biliões de pessoas não têm acesso a água potável? E que mais de 4 biliões não têm água corrente em casa?

... nalgumas partes de África, mulheres e crianças carregam até 20 litros de água por vezes durante mais de 5 horas, de uma nascente até à sua casa, enquanto que no mundo industrializado uma casa de 5 pessoas utiliza em média 640 litros de água por dia?

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2009/02/19

A Cesariny (reloaded)

















O navio de espelhos
não navega, cavalga
seu mar é a floresta
que lhe serve de nível




lanço a mão navegante
e os dedos marinheiros

esquadrinho-te de fio a pavio -
ignota derrota percorre este navio



Angra do Heroísmo, Terceira, Açores

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2009/02/17

A Cesariny

Público - Hoje já se pode ser "gay" de forma livre? 

Mário Cesariny - "Gay" é uma palavra horrível. Ninguém é mais triste do que alguns homossexuais que conheci... Se não se importa, passo a usar a terceira pessoa do plural. Eles querem mais direitos e dizem, muitas vezes, uma coisa que não é verdade: que são casais iguais aos outros. Está-se mesmo a ver que não são. 

Público - Porquê? 

Cesariny - Porque não são homem e mulher, são homem e homem ou mulher e mulher. E o homem precisa da mulher. É a tragédia dele. Inventou a Matemática, a Aritmética, a aviação, a Nona Sinfonia, a ida à Lua... Tudo obra de homens. Que é que isto quer dizer? É um esforço desesperado para se libertar do jugo da mulher. Ela, muito quietinha em casa, a tratar de coisas importantes, como a comida e a roupa, enquanto o sábio está a chorar frente às equações. 


in Público, 1 de Dezembro de 2004

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2009/02/16

A al berto


















cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais




habitas agora a memória
a memória de todas as coisas
esquecidas, de todas as coisas
não recordadas, das coisas
perdidas pelos cantos,
abandonadas, nómadas,
amargas, putrescíveis.

e não mais nos entregamos
não mais nascemos um no outro
não mais lembramos a pele
na pele incomensurável
o suor que nos cobria
e descobria os corpos
aflitos, quando todas as coisas
ainda eram esse mar azul e verde
que nos subia à boca, a salsugem
das coisas, de todas as coisas
agora desabitadas à beira-mar.


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2009/02/11

Posso ser um bocadinho nodja mas pelo menos não amo o Roberto Carlos.

A fazer de conta que ligo à política



Aparentemente, não se pode ser jornalista e ter opinião. Aliás, não se pode ser jornalista e ser-se inconfidente. Parece que cai mal um tipo beijar e depois ir a correr contar. Claro que o facto de o beijocado ser um parvenu desconhecido que, por acaso, é membro do Governo, eleito pelos cidadãos e que deverá estar sujeito ao seu escrutínio público, parece ser pormenor de somenos importância.

Pois eu digo: estou-me nas tintas para a putativa inconfidência. Que venham mais. Que se saiba, de uma vez por todas, quem é que diz o quê a quem. Quem é que faz que favores a quem e em troca do quê. Porque senão é o pântano, o proverbial pântano de que falava o outro. Num país de jeito, onde o poder judicial funcionasse, a sério, e não a brincar, as suspeitas eram investigadas e as pessoas nelas envolvidas seriam processadas e condenadas - ou definitiva e claramente ilibadas.

Neste país, não. As conversas existem, são gravadas mas depois, claro, há erros processuais, há computadores que são convenientemente roubados, há processos que desaparecem, escutas que se fazem - ou deixam de fazer - há factos que toda a gente sabe que aconteceram mas que aparentemente nunca sucederam, há autarcas que fogem para o Brasil para impunemente voltarem e serem reeleitos, outros há que saem das câmaras e que ficam a viver de sinecuras, há ministros que hoje são governantes e amanhã são nomeados para gestores da coisa pública para depois de amanhã terem uma reformada dourada enquanto são gestores de múltiplas coisas privadas, há todo um circuito de gente que aparentemente vive de alcavalas, prebendas e troca de favores, uns, meros venditores fumi, outros, the real thing. A lista é longa: José Luís Judas, Santana Lopes, Fátima Felgueiras, Ferreira Torres, Paulo Portas, Sócrates, os gestores da Gebalis e por aí fora, só suspeitos, julgados na praça pública e em investigação, inocentados, arquivados ou condenados, em suspense, pela magistratura.

Caramba!, se à mulher de César se pede que não só seja séria, como pareça ser séria, aos políticos – que, ao que sei, ainda é uma actividade para a qual nos voluntariamos – pede-se que, pelo menos, sejam probos, honestos, cultos e de visão.

Fossem eles assim e eu juro, juro, que não me importava de lhes pagar um milhão de euros por ano. Ou mais. Mas não. Se pela probidade não posso por as mãos no fogo – afinal, não há qualquer político que tenha sido condenado por actos lesivos do interesse nacional e que a decisão tenha transitado em julgado, pois não? – que resta do resto?

Uma catrefada de deputados, inúteis, que votam quase que todos – com honrosas excepções – à ordem do his master’s voice, muitos vindos do caciquismo das brenhas (como aquele inenarrável deputado de Travassô), a maior parte criada no caldo de cultura das mais diversas jotas, governantes caceteiros, trauliteiros e lapuzes, gente que cospe perdigotos para a televisão e que telefona ao pai com o gáudio de terem sido nomeados ministros de coisa alguma, parolos de fatinho de três peças a esconder a barriga rotunda, o botãozinho a rebentar, impante, o motorista às ordens, o rei na barriga e o povo no bolso, os Mercedes e os bêémedoubliús blindados pagos com o dinheiro que falta às reformas dos que chegam ao fim do mês sem dinheiro para medicamentos e conduto no prato.

Sim, porque estes luxos – carros, aviões, reformas milionárias, têgêvês, auto-estradas, aeroportos, estádios de futebol e demais elefantes brancos que tanto jeito dão a uns quantos especuladores imobiliários, a umas quantas empresas de construção civil escolhidas a dedo (olá, Jorge Coelho) e que depois aparecem a pagar, aparentemente, certas facturas que, também aparentemente, não deveriam pagar (olá Somague) – pagam-se. Com bom dinheiro.

E como é que se pagam? Ora, com os 800 euros de descontos que me tiram do ordenado todos os meses, por exemplo. Com o quinto real (e ainda diziam mal dos impostos da monarquia) que é essa coisa chamada IVA e que taxa tudo o que eu compro, desde fraldas a medicamentos essenciais à vida, desde pepinos ao pão, passando pela carne, pelo peixe, por uma viagem de avião, de comboio, por falar ao telefone, por vir à internet, por ter televisão - mesmo que a não tenha basta-me ter um contador da luz para estar a sustentar o buraco negro da RTP, paga-se com essa obscenidade do imposto automóvel, com o imposto sobre os produtos petrolíferos, com o IMI, com as portagens, com as taxas e os emolumentos que se pagam para se ir ao médico, à escola, à universidade, para morrer, para casar, para nos divorciarmos, para termos carta de condução, para termos BI, com as coimas que pagamos por cagarmos fora do penico ou por violarmos umas das milhentas posturas e leis feitas para nos controlar e para nos por em ordem, não vamos nós acelerar demais, cortar estradas, fazer greves selvagens, atravessar fora da passadeira, pescar à cana sem licença, fumar para cima da chispalhada do vizinho, sacrificar cabras ou ovelhas sem ser nos matadouros oficiais, circular em carros com matrículas não chipadas ou qualquer outra coisa que a malta do politicamente correcto e do policiamento controleiro ache mal, inapropriado ou simplesmente lesivos dos interesses superiores da Nação valente e imortal.

Mas voltando ainda ao artigo do Crespo. Se ele deu a volta à blogosfera, não é por causa do Crespo que o fez, plagiado ou não. Aliás, estou-me nas tintas para o Reinaldo Ferreira – que, para mim, é mais o gajo da receita para fazer heróis – e estou-me nas tintas para o Mário Crespo. Como, aliás, estão outras pessoas, por outras razões que para agora não interessam nada.

O que este artigo tem de apelativo é a chamada de atenção para uma série de coisas que, a brincar, a brincar – ou melhor, a fazer de conta – são uma sucessão de trapalhadas e de factos mal explicados (se calhar, porque não podem ser justificados), de coisas que, no máximo, denotam corrupção, tráfico de influências e suborno e, no mínimo, são resultado de incompetência, malcriação, prepotência, soberba e desleixo.

É que, todas elas, isoladas, são quase que inócuas. Afinal, quantos dos que hoje arrotam postas de pescada nos jornais e na bloga fizeram o seu percurso académico com lisura? Eu não – confesso, por exemplo, que fiz a cadeira de Anatomia e Exterior dos Animais Domésticos com cábulas (eu e o resto da turma, alguns deles hoje investigadores doutorados, líderes no seu campo de investigação).

Que me interessa a mim que o Sócrates tenha feito ou não o Inglês Técnico? Que me interessa a mim que ele tenha desenhado aqueles mamarrachos em Abrolhos de Cima - para além de achar que o homem é bimbo até à quinta casa? Nada.

O que eu não perdoo a este primeiro-ministro é ter malbaratado a maioria absoluta que eu também o ajudei ter com o meu voto. Não lhe perdoo o não ter aproveitado esta legislatura para fazer tábula rasa do país e de ter dado um abanão nisto de alto a baixo. Não lhe perdoo pedir-me para apertar o cinto e depois deixar-me enraivecido a constatar que isto de apertar o cinto é só para os do costume enquanto que os outros do costume – as agências de comunicação, os gestores públicos, os grandes escritórios de advogados, o governo da Madeira, entre muitos outros nababos da República, os accionistas do BPN, entre muitos outros da elite do entulho que temos por cá plantada – medram à custa dos furos que eu aperto no cinto.

O que não lhe perdoo é eu ter-lhe confiado o país de merda onde nasci e onde pago impostos, este país pequeno, periférico, endividado, betonizado, emporqueirado, anémico, raquítico, parolo, mal frequentado, onde a culpa morre sempre solteira, onde as pontes caem sozinhas, onde os comboios descarrilam por actos de Deus, onde as obras públicas derrapam, sempre, sempre, apesar de haver orçamentistas pagos a peso de ouro, este país, dizia eu, que entreguei de mão beijada ao primeiro-ministro para que dele fizesse um lugar melhor - para mim, para os meus filhos, para os que ainda têm a esperança de um dia poder vir a dizer “afinal o Eça de Queiroz estava enganado” - e que ele nem sequer tenha tentado mudar isto, enredado que está na sua jactância, nos seus jogos serôdios de baixa política, pobre primeiro-ministro paroquial e bacoco que não vales um chavo daquilo que achas que vales.

Não lho perdoo e vou-lho dizer nas próximas eleições. Com aquilo que (ainda) não me tiraram: o meu voto.


2009/02/10

Stop the press

Eu sei, este blog não trata de política. Mas, sendo política tudo aquilo que fazemos em sociedade, é importante, urgente, fazerem de conta que vão ler isto.


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2009/02/06

Espero que chova amanhã

Sempre que reparo na mole de gente que invade a Linha do Estoril mal surge uma nesga de sol, sempre que observo essa gente, que se monta nos seus jipes e nas suas carrinha familiares e nas suas motas rutilantes à motard, essa gente que me entope a Marginal ao fim de semana como se esta fosse um arremedo qualquer de uma qualquer Calçada de Carriche ou IC19 em hora de ponta de dia útil, quando reparo nessa gente, dizia eu, não posso nunca deixar de pensar nas galinhas, e nos frangos e nos pintos que se acumulam - asa com asa, bico com bico in pecking order - nas paredes estreitas dos gaiolas de contenção dos aviários, onde não há raposas ou milhafres ou cães ferais, onde o avicultor lhes leva toda a comida e toda a água e todos os suplementos vitamínicos e antibióticos que precisar possam, quando reparo nessa gente, repito-me, não posso nunca deixar de pensar nessas aves que têm apenas como objectivo máximo o seu próprio aborrecimento.

2009/02/05

A Sophia
















O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.




marítima espuma
halo de solidão
ave navegando o céu

pudesse eu, como ela,
alar o corpo à tua altura.




Berlengas, Fuji Superia 400

2009/02/01

S.T.T.L.

(...)
- Se eu morrer, tratas dos nossos filhos?
- Não vais morrer. Mas é claro.
Só me enganei numa coisa.
O que ficou de um coração: passaram por aqui os hunos.
A miss Sud-America faleceu esta semana com a mesma bactéria. Mas tu eras mais bonita. Desculpa as palavras espavoridas, fogem dos arbustos para o céu, mas não tenho a tua pontaria a caçar chavões. Não sou Bill Goianes, bandoleiro do Recife.
Tantas viagens paradas no mundo redondo. 
Já muitos o fizeram, deixa-me só dizer-te, Tereza Coelho, amor, obrigado e até à vista.

Rui Cardoso Martins


2009/01/30

A Jaime Sabines




















no es nada de tu cuerpo
ni tu piel, ni tus ojos, ni tu vientre,
ni ese lugar secreto que los dos conocemos




- em silêncio, desenha-se
o voo das aves submersas
desinvaginando-se em asas
espalmadas, cerúleas,
extraordinariamente azuis.

é do fundo de ti
que me vem o mar aos pés.
é do teu porto
que zarpa um navio
que chegará jamais.
é nas tuas costas
que eu sou praia,
rocha, pedra, penedia
a boca cárdea de um peixe
cravada à vertical do dia.

vem de ti, de dentro de ti
este meu desejo aflito,
este coração onde ainda não moro
este querer morrer, lentamente,
nesse teu lugar secreto que ignoro.




Ilha Graciosa, Açores, Fuji Provia 400F

2009/01/27

A Jorge Luis Borges




¿quién es el mar, quién soy? lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía.



repara na noite:
vê como é branca
como se funde no mar
como o preenche, vazia

observa o seu fulgor
como cavalga o ar
como traz de ti
o anúncio de um novo dia


Praia de Carcavelos, digital

2009/01/26

Um adeus português

Escorreram horas antes que o alferes se decidisse a abrir o cabrão do pacote. Há muito que as mãos não lhe obedeciam, tolhidas de medo, paralisadas pelo receio do que quer que estivesse no interior daquele embrulho de papel pardo, algo mole ao toque, cheio de coisas que bimbalhavam lá dentro.

Lá fora, o calor espesso da noite acacimbada acobertava o resto da patrulha, vultos negros por entre o capim molhado, as G3 à mão de semear, os urros dos bichos muito ao longe, a loucura da raça e o lastro da história levados à sanzala africana pela voz ciciante que um dia dissera Angola é nossa.

Com um ribombar surdo, o céu principiou então a desfazer-se em água. A princípio, algumas gotas grossas que empaparam irmãmente tanto os que dormiam como os que velavam. Depois, fecundando a terra vermelha e escura, aberta como uma vulva, expectante, pronta para o orgasmo aquoso que adivinhava, o dilúvio prometido.

Despertada, a mão do alferes animou-se, avançou, abrindo um sulco na superfície engordurada do papel almaço. Lentamente, como se despisse um corpo adormecido, desatou um a um os nós do sisal, descobrindo os selos e o remetente, as dobras e as contra-dobras do invólucro. Levantou o pacote e, à luz amodorrada do petromax, deixou cair na mesa um anel de ouro fino, um colar, três fotografias e uma folha branca, muito branca, branca como nunca vira outra, tão branca que o cegava, uma humidade envergonhada nos olhos, as mãos crispadas a apertar convulsivamente a folha branca maculada pela tinta azul onde se desenhava, em fina caligrafia, a palavra adeus.

2009/01/25

Ne varietur

com calma, muita calma,
abro-te o meu corpo como se abrisse um livro

verifico, sem surpresas,
que não tenho indíce ou posfácio -
todo eu sou letras, frases, a caminho de ti.

2009/01/24

Coup-droit, dégagement




















A fellow will remember a lot of things you wouldn't think he'd remember.

You take me.

One day, back in 1896, I was crossing over to Jersey on the ferry, and as we pulled out, there was another ferry pulling in, and on it there was a girl waiting to get off. A white dress she had on. She was carrying a white parasol.

I only saw her for one second.

She didn't see me at all, but I'll bet a month hasn't gone by since that I haven't thought of that girl
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Passaste vezes sem conta por mim e eu outras tantas me voltei para te ver passar.

Vi-te em Lisboa, no Porto, em Paris, no Algarve e até ao virar da esquina de casa. Poderíamos ter casado, poderíamos ter dado a volta ao mundo ou até só passeado de mão dada num parque qualquer, numa cidade qualquer.

Foste loura e morena, alta e baixa, não importa. Sei que tiveste várias vidas e que em todas elas passaste por mim, de cabelo curto ou comprido e que em todas elas me virei para te ver passar, lisa e flexível, momentaneamente esquecido de como eu próprio me espessava e envelhecia.

Quase que aposto que não passou um mês sem que me lembrasse de ti, ao ver-te passar novamente por mim, mais loura que morena, mais meã que alta ou baixa, a tua boca a amolecer imaginariamente de madura no meu peito.

Mas nada disso importa.

O que importa é que tudo aquilo que, confusamente, tínhamos pensado que poderíamos vir a ser, ali mesmo, em Paris ou em Lisboa, entrara tumultosamente na boca larga de um funil, do bico do qual escorre agora o fiozinho estreito, incolor, e tépido daquilo em que nos tínhamos tornado.

O que importa, realmente, é que passamos a vida a cruzar as coisas e as pessoas pelo lado de fora. Porque, finalmente, não são as coisas nem os lugares que importam, nem apenas as pessoas. São as sínteses súbitas que, de repente, se fazem de tudo isso. As pontas que, espontaneamente, ligam os homens, os bichos, as coisas, os lugares, os cheiros e as cores. De como tudo isso é, por momentos, importante, urgente. Cristalino. Mesmo que venha demasiadamente cedo ou chegue demasiado tarde.


2009/01/20

Memento mori


























Quando me sento no Arquivo Histórico Ultramarino e peço a gaveta que me interessa - do Reino, de Angola, do Brasil, da Madeira, dos Açores, das parte do mundo por onde andámos e deixámos marca e memória - sei que, minutos depois, virá ter à sala de consulta um técnico de bata branca com uma gaveta em metal verde-seco nos braços. Dirá então, "está aqui a gaveta que pediu".

E quando mergulho as mãos nas folhas de papel amarelecido pelo tempo e pelas bolandas em que andou, a bordo de navios e fragatas, cosido nas dobras da roupa de um qualquer andarilho de barba hirsuta ou na pasta de um beleguim qualquer, é como se, de repente, as vozes dos mortos de há muito voltassem a soar, naquela sala daquele palacete sorumbático, onde dedos de investigadores se afadigam de encontro às teclas dos portáteis.

É como se as viúvas voltassem a pedir ao Rei por mercês e pensões de sangue para os maridos finados ao serviço de Portugal, é como se os feitores voltassem a comunicar ao Conselho de Estado o estado das culturas, das roças e dos engenhos, é como se os soldados voltassem a relatar escaramuças e batalhas, é como se os navegantes voltassem a informar aqui há monstros a quem do mar apenas conhecia a vista e o horizonte para cá do cabo Espichel.

E não deixo de pensar que todos eles - homens, mulheres, homiziados, soldados, viúvas, casados, náufragos, monges, portugueses, mestiços, estrangeiros, judeus, judaizantes, inquisidores - estão mortos, enterrados, esquecidos.

E que todos eles, do que viveram, do que sofreram, amaram e odiaram não deixaram de si mais do que palavras escritas a negro sobre fundo de papel amarelecido, guardadas umas por cima das outras em gavetas de metal verde-seco. E penso igualmente, se e quando acabarem os computadores e a internet, que será destas minhas palavras, que será de mim.

2009/01/18

l'ombre de ma main, l'ombre de ton chien


















apetece-me morder as mãos,
as mãos que te mediram o corpo
e tomaram a altura do teu peito
apetece-me atirá-las à parede
até que se desfaçam em sangue.
apetece-me arrancar os braços
que um dia te abraçaram,
que um dia me soergueram
enquanto entrava em ti
como se fosse sempre,
sempre, a última vez
para sempre.

apetece-me cortar a pele em tiras
alinhar os tendões, as veias e as artérias
como se fossem soldadinhos de chumbo.
apetece-me seccionar o meu coração
em dois pedaços
e fazê-los ir até ti,
tentando equilibrar-se
como pequenos autómatos
na corda bamba,
no arame instável
dos nossos irreconciliáveis.

apetece-me cerrar a boca de medo
e gritar com força a raiva que te tenho.
apetece-me cerrar os dentes e seguir em frente,
apetece-me dissolver-me discretamente
no nada em que te tornaste,
fechar os olhos e desaparecer docemente,
sem mover um único músculo,
como se nunca tivesses existido
como se não se tivessem passado
dias, semanas, meses,
entalado entre a vertigem da ausência,
as antigas cumplicidades
e a crosta do passado.

como se tudo isto
ainda tivesse pernas para andar,
como se não houvesse em todas as coisas
o travo amargo e involuntário
do demasiado tarde,
o peso antigo do homem novo
lastrado pela solidão.




Régua, Kodak Tmax 3200.

2009/01/13

Le Rhin qui coule, un train qui roule


Levanto-me da cadeira onde me sento, abro a porta da rua, desço dois degraus e alcanço a caixa do correio.

Abro-a

- vazia,

fecho-a.

Subo dois degraus, fecho a porta da rua e sento-me na cadeira onde agora passo os dias.

Semanas, meses, entalado entre a vertigem do salto e a necessidade do salto, como um mergulhador na prancha dos dez metros, tão na soleira do inteiramente desconhecido, tão embrulhado em mim próprio que, mesmo olhando para baixo - agarrado ao corrimão, a achar a piscina subitamente pequena - não consigo, também, descer as escadas de regresso a uma segurança definitivamente perdida.

Carícias que não se completam nunca, a íntima certeza do desencontro. E o desejo a ferver, a causticar-me por dentro, as comportas encerradas, aprisionando numa albufeira privada toda a água morrente antes sublimada em confidências e ora represada. E a vontade, como um balão que enche, a ocupar-me o peito, cada dia um pouco mais.

Se calhar, se te tivesse dado a minha morada, escrever-me-ias mais asinha.

2009/01/10

Homme libre, toujours tu chériras la mer

Era Verão e o mar estava fantástico. As ondas deixavam miragens ali, bem perto de nós, quase a molhar a ponta da toalha onde nos estendíamos. Vinham espumas brancas e frescas, eternamente lindas e esvaziavam-se, quase que de propósito, quando as acariciávamos com as pontas dos dedos. Quando entrava em ti, esbraseado e sidérico, era como se possuísse a Terra toda, a intimidade feita da aproximação das coisas ao seu fim, era como se repentinamente alguém rodasse o botão do volume todo para a direita 

- e rugisse então o marulhar das ondas nos nossos ouvidos e as gaivotas gritassem com mais força nas falésias.

Depois, acordados, sonhávamos castelos de areia branca e conseguíamos pô-los de pé. E como eram altivos, esses nossos castelos: tinham torres de marfim e cinderelas e peixinhos prateados da cor do mar, nos fossos, e pequenas água-marinhas que, aqui e ali, brilhavam nas ameias da nossa imaginação, tudo coisas que os nossos dedos iam moldando devagarinho, muito devagarinho 

- e quando eu te olhava, tu tinhas o sorriso mais bonito e mais branco do que a onda mais alva do mar.

Um dia, fatalmente, os castelos ruíam com toda a sua altivez. E com eles morrias tu também - mas só um bocadinho de cada vez, devagarinho, como se alguém abrisse um ralo silencioso por onde te escoavas tu, e o Verão, e o sol e o mar,  tu, de olhos submarinos, novamente fora do alcance, longe, lentamente mais longe, como os comboios iluminados que atravessavam as minhas noites de criança levando com eles o ruído, a luz, a determinação confiante das coisas que iam para um destino qualquer, como humidade chupada a seco pela areia da praia, era como se de tudo o que te rodeava ficasse somente eu, preso apenas por este pedaço de pele que aqui vês, ténue e pálido, transformado em algo que já não me pertence, em alguém que já não conheço

- ficaram, porém, três coisas inesquecíveis: os dedos esguios e belos com que moldavas os nossos sonhos, os teus olhos marinhos, e a minha fraqueza que ainda hoje borbulha e escorre na areia branca, num vai-e-vem perpétuo de quem não sabe para onde vai nem de onde vem.